[CHIQUE É SER MALDiTO]

– correspondência

Posted in -Sobre by Bruno F. Duarte on janeiro 27, 2009

Há muito, muitos dizem, muitos escreveram.

Há muitos.

Poucas cartas chegaram a seu destino.

Das poucas

poucos souberam escrever em minha língua.

Ele soube

– Talvez seja essa antropologia.

Nunca antes li esta correspondência.

Veio com a minha vergonha na cara,

com a vaidade dos pronomes possessivos

e com uma garrafa.

 

Ainda não abarquei todo mar de poesia dele,

mas aquele que fala sobre o homem

escreve em minha língua

coisas que nunca li sobre mim.

– paradoxo

Posted in -Sobre by Bruno F. Duarte on janeiro 8, 2009

É quando você sente que está mais perdido que está mais próximo de se encontrar.

Me sinto mais perdido a cada dia. 

E quanto mais me desespero mais meu ventre gela pela possibilidade de me encontrar a qualquer momento do meu lado.

Posso apostar que sou laranja, às vezes imagino que tenho muitas cicatrizes nas pernas pelas molequices ou que tenho uma distinta na testa por um grande feito.

O doce de tudo isso é aguardar desejoso meu encontro comigo mesmo e saborear o susto por me encontrar e ver que eu não era nada daquilo que estava pensando.

– vida cinza mais-uma-vela-apagada

Posted in -Sobre by Bruno F. Duarte on setembro 7, 2008

 

A bomba detonada no Centro do Rio na manhã do dia sete de setembro era na verdade um artefato de efeito moral. Isso foi o que eu pensei em escrever no curto momento em que rezava para que o Brasil não estivesse sendo invadido por um braço terrorista de algum país de nome estranho.

 

O estrondo me acorda de repente. Bem típico de um sete de setembro pra quem mora no Novo Centro Antigo – é assim que eles chamam agora as ruas fedidas, os prédios velhos e os pés-sujos hypes da Lapa e adjacências. Era só um avião – não, era um caça – sim um avião. Claro. Sete de setembro, avião, barulho, tinha que ter alguma coisa, né? Afinal de contas era aniversário do Andrew – mas essa última informação só ficou clara agora, três dias depois.

 

Antes ela só palpitava, pulsava, perguntava (Não é seis? Sete? Oito?). Foi um esforço tão grande pela independência. Eu apaguei cada sinapse, desescrevi toda a sinopse. Dei ordens para que todo exército de pensamentos recuasse. Toda a minha cabeça antes era confusão. E se eu não sabia lidar com aquele emaranhado de informação sigilosa, agora, eu lutava contra o profeta do pós-guerra. Ele era meu inimigo. Inimigo do Bruno centrado, equilibrado e com status intelectual.

 

A sua anti-matéria-minha me reduz a nada. Esse oposto me destrói, devasta meus risonhos lindos campos de paradigmas. Como um pirata saqueia todo meu estoque de sorrisos paraguaios, minha idade, meu leme, minha precariedade de sentimentos, meu tão instável equilíbrio emocional, minha fantasia. Eu só queria esquecer por instantes, mas esqueci demais. O superego diz que é pouco, mas na verdade tanto faz.

 

Ele sabe que eu nunca liguei paras as tais convenções sociais. A rima fácil me diz que eu sou o tosco, o fosco, uma rima barata, uma barata, outra rima barata. E insiste em completar que eu só queria te dizer a idéia que eu tive pras fotos com cenário do Nelson Rodrigues e com as músicas do Chico Buarque, mas o que eu sempre digo quando as forças reacionárias embebedam-se é: Queria falar com você… E elas se rendem a revolução que prega a abstenção masini – o controle, o equilíbrio e a convulsão. Elas só não aprenderam que tudo é uma coisa só. Tudo é escuro. Tudo é Bruno. E mais do que um dia de independência o sete de setembro foi um dia de trabalho inconsciente.

 

Eu, sim, pedi pra esquecer tudo, eu precisava me afastar da equação. E agora está tudo leve. Eu esqueci pra nunca mais lembrar de esquecer. E eu posso falar que eu gosto de tudo isso, eu gosto de ser verdade. Eu quero ser claro. Eu sou seu amigo. E isso é o que eu sempre quis ser. A poesia às vezes faz tudo parecer turvo, mas na verdade é tudo muito claro. Sempre esteve abaixo. A data foi convencionada, o que me importa é que você nasceu. Os parabéns não são pra você. Viva ao acaso que nos deu o fardo e a glória de ser.

 

 

 

 

– as mulheres negras independentes

Posted in -Sobre by Bruno F. Duarte on agosto 18, 2008

As mulheres negras independentes me surpreendem e fazem eu me espantar comigo mesmo as mulheres negras independentes. As mulheres negras independentes me fazem tremer e mostrar os dentes as mulheres negras independentes. As mulheres negras independentes enchem meus cadernos em branco, e o cinza fosco do meu lápis agora se faz platino, reluzente, fúlgido e todos os outros adjetivos equidistantes no admirável potencial intelectual dela. Ela – a mulher negra independente. Ela adentra e minha máscara cult cai. Ela mulher negra independente. Não me contenho, não me suporto, é poesia demais. É Demasiadamente. Às mulheres negras independentes toda minha dor às mulheres negras independentes. Por isso a minha cor às mulheres negras independentes. Por isso o meu sangue. Por isso minhas palavras que se embolam, tropeçando, vermelhas, coradas, envergonhadas, que mostram suas pernas costuradas, desavergonhadas. Por isso minha timidez. Por isso eu digo entre nuances de um rubor mal resolvido: todo meu amor às mulheres negras independentes. Ela é demasiadamente uma mulher negra independente.

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